sábado, 29 de agosto de 2009

Relembrando Vinícius


Conheci a obra de Vinícius de Moraes através dos livros do meu pai. Lembro que o primeiro texto que li foi um em que ele fala para o filho Pedro. Hoje, por algum motivo, lembrei disso. Eis que o transcrevo aqui.



Pedro, meu filho...
Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e ver-te sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso norte.
E a morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...
Laís Toscano

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Em nome da fé

A mídia nesses últimos dias vem noticiando o escândalo que envolve a Igreja Universal do Reino de Deus, onde esta é acusada de recolher o dízimo e destiná-lo para interesses particulares. Ora, a doação é livre, claro! O que não é justo é que se use a fé para arrecadar dinheiro, e além do mais, fazendo lavagem cerebral para que as pessoas façam doações de grande vulto na crença de que quanto maior for a fé, maior deverá ser também a doação.
A legislação isenta as igrejas de pagamentos de impostos justamente para que a doação feita pelos fiéis seja destinada aos gastos com a própria igreja e em ações sociais.
A acusação feita a igreja já mencionada é de que além dessas doações estarem sendo aplicadas em imóveis luxuosos para particulares, está também, sendo colocada a disposição de empresas privadas.Em um país com inúmeros problemas sociais como o Brasil, cheio de miséria e corrupção, agora presenciamos a venda da fé, na promessa de salvação, da cura ou de um lugar no paraíso.
Ora, meus senhores, usar o nome de Deus para enriquecer, para trapaciar é o cúmulo, aproveitando-se das pessoas de boa-fé que vão a igreja a procura de uma satisfação interior, na crença do seu Deus, esperando uma resposta para suas agruras, e sem contar que para muitos a fé é tudo que lhe resta.
Meus senhores, a fé é inalienável.
Laís Toscano

sábado, 8 de agosto de 2009

Mão estendida


Vem, amigo! Eu vou ouvir você falar tudo que deseja. Entra, senta, sinta-se a vontade, a casa é sempre sua. Sim, irei ouvir, apenas ouvir, e prometo não fazer críticas, você sabe que eu não sou boa em críticas.

Vem, me deixa pegar na tua mão, olhar você bem devagarinho, reconhecer teus olhos. Há tempos em que não nos encontramos e isso traz a sensação de que deixamos de viver muitos momentos.

Fique a vontade pra chorar, eu respeito as lágrimas, os sentimentos e as palavras. Aliás, eu sou apaixonada pelas palavras e você sabe bem disso.

Olha, fala o quanto sentir, chora até o corpo se esgotar, e quando o sono bater eu vou acariciar teus cabelos e velar teu sono.

Calma! Ainda guardo aquele ursinho que você adora, vou pegá-lo para você se sentir mais protegido.

Vem, amigo! Confia!



Laís Toscano