
Caríssimo Senhor Tempo,
Após longos anos de desentendimento venho levantar minha bandeira da paz e tentar um acordo. Sei que não é simples, tenho minhas falhas, mas é preciso que o senhor também reconheça suas provocações. O senhor, Vossa Majestade, Alteza, Santidade, ou seja lá como deseja ser chamado insiste em me deixar pra trás. Para corresponder as minhas atividades acadêmicas eu preciso acordar às 6:00 e quando menos espero o senhor já está caminhando para a casa das 7:00, e isso atrasa todo o meu dia. Não sabe o constragimento que causa aos meus afazeres diários. Pra completar nossas confusões, preciso que o senhor elasteça mais o meu dia para que eu possa concluir meu trabalho de encerramento de curso, já apelei pra isso, mas até agora não houve resposta. Preciso tomar muitas decisões, mas para isso preciso também de que o senhor me ajude, me aprimore, me permita maiores sabedorias.
Andei muito zangada com o senhor em outros tempos. Basta lembrar da minha prova de vestibular, quando ainda precisava da sua compreensão e o senhor não me ouviu. Mas tudo bem, tudo bem, isso foi há cinco anos. Cinco anos em que éramos mais jovens, éramos mais inexperientes, tanto eu quanto Vossa Excelência. Isso já passou e nesses anos que percorri não posso só julgá-lo como mal. O senhor tem me feito aprender muitas coisas também, tenho me tornado mais responsável, mais equilibrada, tenho até gostado mais de mim, graças as possibilidades que o senhor vem me permitindo. Claro que uma vez ou outra fico chateada, reclamo, insisto, mas não tem jeito, o senhor é implacável, não perdoa, não desiste, não pára.
Agora, por exemplo, estou bastante contrariada, porque cá estou eu tentando fazer um ato de diplomacia e o senhor está aí correndo, só Deus sabe pra onde, feito um louco desvairado, sempre apressado e imprevisível e nem sequer me dá ouvidos.
Sinceramente, desisto. De-sis-to. Desisto. O senhor é intoleravelmente insensível. Definitivamente, desisto.
Laís Toscano
