segunda-feira, 30 de março de 2009

Carta ao tempo


Caríssimo Senhor Tempo,

Após longos anos de desentendimento venho levantar minha bandeira da paz e tentar um acordo. Sei que não é simples, tenho minhas falhas, mas é preciso que o senhor também reconheça suas provocações. O senhor, Vossa Majestade, Alteza, Santidade, ou seja lá como deseja ser chamado insiste em me deixar pra trás. Para corresponder as minhas atividades acadêmicas eu preciso acordar às 6:00 e quando menos espero o senhor já está caminhando para a casa das 7:00, e isso atrasa todo o meu dia. Não sabe o constragimento que causa aos meus afazeres diários. Pra completar nossas confusões, preciso que o senhor elasteça mais o meu dia para que eu possa concluir meu trabalho de encerramento de curso, já apelei pra isso, mas até agora não houve resposta. Preciso tomar muitas decisões, mas para isso preciso também de que o senhor me ajude, me aprimore, me permita maiores sabedorias.
Andei muito zangada com o senhor em outros tempos. Basta lembrar da minha prova de vestibular, quando ainda precisava da sua compreensão e o senhor não me ouviu. Mas tudo bem, tudo bem, isso foi há cinco anos. Cinco anos em que éramos mais jovens, éramos mais inexperientes, tanto eu quanto Vossa Excelência. Isso já passou e nesses anos que percorri não posso só julgá-lo como mal. O senhor tem me feito aprender muitas coisas também, tenho me tornado mais responsável, mais equilibrada, tenho até gostado mais de mim, graças as possibilidades que o senhor vem me permitindo. Claro que uma vez ou outra fico chateada, reclamo, insisto, mas não tem jeito, o senhor é implacável, não perdoa, não desiste, não pára.
Agora, por exemplo, estou bastante contrariada, porque cá estou eu tentando fazer um ato de diplomacia e o senhor está aí correndo, só Deus sabe pra onde, feito um louco desvairado, sempre apressado e imprevisível e nem sequer me dá ouvidos.
Sinceramente, desisto. De-sis-to. Desisto. O senhor é intoleravelmente insensível. Definitivamente, desisto.


Laís Toscano

sexta-feira, 27 de março de 2009

A saudade é cor de cinza


Despiu-se da capa que a protegia contra os sentimentos, correu para o quarto, sentou-se no chão junto à parede e então chorou. Era um choro guardado há dias, há meses. Tinha passado horas e horas de uma angústia que resistia para admití-la e só naquele dia, quando já não suportou, se entregou a vulnerabilidade das dores do amor. Questionava-se como teria chegado até alí. Era tão indiferente às coisas do coração e, até então, era intacta às armadilhas sentimentais. Não aceitava o sofrimento como se tivesse escolha, como se pudesse separar de si mesma, como se pudesse arrancar as decepções como se arranca uma roupa do corpo. Era imatura demais pra perceber que a vida traça seus próprios caminhos sem nenhuma consulta prévia. E naquele desespero da rejeição as lembranças a atormentavam. Quantas promessas! Quantas palavras gentis que se perderam em instantes .
Tentou se refazer, enxugou o rosto, levantou-se, respirou e percebeu que a dor ainda estava guardada. Seria uma batalha diária, ela e a dor, a insatisfação e a raiva que cultivava de si mesma por deixar se enganar de tal maneira.
Tantos planos, tantos sorrisos que ficaram somente na memória, tantos abraços que se perderam na ilusão de um amor inventado, fingido, que agora rasgava seu orgulho e sua alma. Estava exausta, não se reconhecia no espelho. Antes era tão descrente dessas dores e dos amores, mas agora era vítima da sua inocência.
E dentro da sua tristeza percebeu que havia aprendido algo, aprendeu que a saudade tem cor, era cinza. Assustadoramente cinza. Cinza como as lembranças que a marcariam por um longo período. Mas prometeu a si que jamais deixaria enganar-se outra vez, não acreditaria mais nas palavras sutis e amáveis. Duvidaria de todos os elogios, de todas as promessas de felicidade, de todas as juras de amor, e que dalí em diante seria mais forte. Pobre menina começara a enganar-se outra vez.



Laís Toscano

domingo, 22 de março de 2009

"São as aguas de março fechando o verão,
é a promessa de vida no meu coração..."


E março chega ao fim. Terceiro mês do ano cumpre seu papel, e mostra certeza do seu retorno em 2010, mas minhas esperanças não se foram junto com seu término. Estou de cara limpa para enfrentar os próximos meses. 2009, provavelmente, será o ano dos desafios, e que venham todos!

Laís Toscano

quinta-feira, 19 de março de 2009

Nem porquê nem pra quê

As vezes me pergunto o porquê de tantos personagens. O porquê de tantos fingimentos inúteis. Não adianta. O que se sente está guardado de forma mais segura possível, e pode ser que se consiga transparecer uma idéia diferente da real para qualquer pessoa , desde que não seja você mesmo. Permitir-se sentir alegre ou até mesmo triste é de uma grande fortaleza, porque é quando já não há preocupação com os pensamentos alheios sobre você. Sinceramente, não quero (e nem preciso) estabelecer meios que disturpem a minha imagem. Quero ser, e não parecer ser! Acho que se todos estivessem dispostos a aceitar as emoções e sentí-las, seja lá essa qual for, tudo seria mais simples de se resolver.
Não quero me fazer de forte nas horas que precisar de ajuda, e também não vou camuflar minha alegria quando esta me invadir. Talvez essa seja uma forma de liberdade. Fingir é muito trabalhoso e eu morro de preguiça!



Laís Toscano

segunda-feira, 16 de março de 2009

Severinas

Meu pai é dotado de uma sensibilidade imensa. Uma vez ou outra ouço ele falar de sua infância, aventuras de quando jovem, de sua relação com seus pais, das travessuras com amigos e primos, e cofesso que tudo isso sempre me fascinou.
Certa vez vasculhando os documentos de seu computador encontrei um texto que falava de duas Severinas, de imediato não compreendi quem seriam as tais. Curiosa que sou, o questionei sobre tais mulheres, de imediato me respondeu com satisfação que suas avós possuiam o mesmo nome e em homenagem a elas teria escrito o referido texto.
Agora o publico aqui!

Severinas

Foram duas Severinas
Que marcaram minha vida,
foram berços criadores
de proteção e muitos amores.
Do riso fácil,
da mão severa,
do olhar profundo
e visão de mundo.
Foram duas Severinas,
uma velha outra sempre menina,
uma urbana outra rural,
mas nas duas Severinas
nenhuma me fez mal.
Uma comprava a outra vendia,
se outra chorava, uma sorria.
Uma pensava e a outra dizia.
Foram duas Severinas,
Severinas que se foram.
A saudade faz memória,
e deixaram na minha história
dois frutos Severinas.


(Percinaldo Toscano)

domingo, 15 de março de 2009

Maria Chica

Na ruazinha da minha infância,
tinha uma mulher bonita,
negra africana.
Seu nome completo eu não sei.
Era Maria Chica!
Solitária, solidária...
E tinha o passado como diálogo.
Delirava em meio à fumaça azul do seu cachimbo.
Amavelmente fraterna
e numa imagem em preto e branco,
fixada na meia parede da sala
um verso de menina!

Percinaldo Toscano


Este é um texto que faz referência à infância do meu pai, e este sempre muito ligado a suas raízes, escreveu sobre a senhora Maria Chica, que com sua importância fez parte da vida do autor.

Sem título

" Sonhei, como eu sonhei!
e envolto neste sonho,
não percebi que por entre os dedos,
o sonho fugiu,
e o sonho que sonhei, temporariamente, foi para o pretérito perfeito (evadiu)"

Peunovich

Abrindo a cortina

Sempre tive o hábito de escrever, claro que sem nenhuma pretensão maior, a não ser uma forma de me conhecer melhor, ou sei lá, um meio de "expulsar" meus pensamentos. Entre alguns textos já escritos, muitos ficaram em folhas de cadernos velhos e outras se perderam em mim. Aqui pretendo escrever sobre um pouco de tudo que me preenche: livros, sonhos, músicas, opiniões, dúvidas, textos esquecidos em meio aos meus livros e papéis...

Não quero fazer deste espaço um ponto de referência à nada, desejo apenas escrever, escrever e escrever!

Com entusiasmo,
Laís.