sexta-feira, 8 de abril de 2011

A casa amarela

Rua Clemente Pereira, nº 57, casa amarela de esquina, portas e janelas ladeadas de desenhos em alto relevo, pé direito alto, telhas aparentes e no chão cerâmica em cores vermelha e branca.
Fecho os olhos e consigo ver a porta azul dividida ao meio, no canto da parede da sala há travas de madeira que servirão de reforço logo mais à noitinha.
Invado a sala e me deparo com a vitrola posta na estante de madeira escura. Uma mesa ao centro decorada com toalha de renda branca e no canto direito da sala uma mesinha com rodinhas serve de apoio para a televisão.
A cadeira de balanço está lá, estou a vendo!
São cinco e meia da tarde, sinto cheiro de café. É o aviso: vovó está na cozinha! Ouço barulho de panelas sendo usadas e sei que para o jantar terá sopa com gosto de carinho.
Sento-me à mesa e os pés ainda não alcançam o chão, minha avó observa se larguei os cotovelos sobre a mesa, volta-se novamente para o fogão que fica logo em frente, anda de um lado para o outro, corta cenoura, batatinha e chuchu, afinal, a sopa precisa ficar pronta. Sobre a mesa tem pão quentinho, bolo e bolachas.
De longe escuto os passos arrastados do meu avô, ele gargalhou alto, desconfio que está conversando com alguém que passa na rua.
Volto para a sala e sobre a mesa tem uma imagem de Nossa Senhora e outra de Jesus Cristo.
Bate o sino da catedral, já passa das seis horas. Vovó corre contra o tempo para chegar antes que a missa comece. Sobre a roupa branca tem uma fita vermelha indicando que ela compõe o grupo das Filhas de Maria.
O tempo passou e em um dia qualquer meu avô se desfez da vitrola , da televisão antiga e da estante de madeira escura.
O que era sala passou a ser quarto e a porta azul não existe mais.
O tempo marcou o rosto da minha avó, multiplicou seus cabelos brancos e levou meu avô.
Hoje, entre as paredes espessas da casa amarela, minha avó caminha arrastando os pés e a saudade.

Laís Toscano

sábado, 30 de outubro de 2010

Cenário político geralmente apresenta algumas incongruências e, por regra, muitas desavenças. Reta final de segundo turno na Paraíba, algumas surpresas no resultado do primeiro turno, falatórios, uns passam de lá pra cá, de cá pra lá, enfim, nada que não possa ocorrer em outros Estados da Federação, mas na Paraíba as eleições tiveram algo a mais: nosso estado serviu de teatro para uma peça de apresentação exclusiva.
Helicóptero "inunda" várias cidades com panfletos acusando um candidato a governador de ter pacto demoníaco e fazer estátuas com significados satânicos na capital do estado. Sim! O cúmulo da apelação! O mais alto nível da canalhice, da sujeira, do escárnio. É a luta desenfreada pela manutenção do poder, nem que para isso precise usar e abusar da fé e duvidar da sabedoria do povo.
Os últimos momentos das eleições estão sendo recheados de estupidez, a ponto de deixar qualquer um aflito para saber qual vai ser a próxima bizarrice.
Numa disputa eleitoral não há problema nenhum quando há divergências de ideias, de propostas, de ideologias, mas o problema surge quando o cerne da questão passa a ser a agressão e o preconceito. Aí, meu caro, deixa-se de lado a democracia, o respeito e o bom senso, e tudo passa a correr na base da escrecência. Ficam fazendo política à base do oba oba, do "vamos ver no que dá".
Cá fico eu questionando que numa democracia elege-se o que for melhor, e o melhor que podemos ter é isso? Merecemos assistir essa mediocridade em busca do poder a qualquer custo?
Freud já disse que "quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo". E são nessas horas que revela-se a face imunda e o dedo podre.
Enquanto isso, num cantinho do Nordeste, minha Paraíba pequenina anseia por dias que honrem a dignidade de seu povo.
Laís Toscano

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Assim como no sonho

De repente ele apareceu no meu sonho. Meu avô vestindo roupa branca, com olhos espertos e um sorriso sereno ficava a me olhar sem dizer nada. Eu, com a alegria da surpresa e ansiosa por alguma palavra, ficava parada com um olhar de expectativa. Perguntei algumas vezes se estava tudo bem mas ele continuou em silêncio, apenas sorriu e bateu os olhos para confirmar minha pergunta.
E como coisas que só em sonho são possíveis, meu avô transformava-se em criança de colo. Peguei-lhe nos braços e o acomodei. Segundos depois meu avô foi envolvido numa nuvem branca como algodão e aos poucos ía sendo retirado dos meus braços, ficando cada vez mais distante até desaparecer por completo no ar.
Acordei, olhei para os lados acreditando que meu avô ainda estivesse por perto. Não! Partira segundos atrás.

Amanhã, 23 de outubro, completam dois anos que meu avô partiu para a eternidade, mas nos meus sonhos vira e mexe ele se faz presente.
Meu avô na vida, assim como no sonho, partiu e ainda era um menino.


Laís Toscano

domingo, 25 de julho de 2010

Em poucas linhas

É bem verdade que corta, sangra, dói, cicatriza e marca.
É verdade quando falam do meu cansaço e do meu desânimo.
Não vou desmentir que desacreditei, que por horas desistí, mas que sentí necessidade de me refazer.
Eis que hoje preciso de palavras de incentivo mas elas não vieram.
Vieram golpes como farpas. Vieram como uma lâmina afiada no pescoço ou como um simples toque no gatilho. E chorei.
Chorei pelo amanhã que hoje se tornou mais difícil, chorei pelo quanto que tentei ser correta e não foram comigo, chorei por não ter para onde voltar, chorei pelo excesso de palavras trancafiadas e o nó que ficou na garganta.
E assim como num trecho do poema de Drummond, palavras em voz mansa me golpearam.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Último conselho

Já não era mais tão menina e ainda não sabia o que fazer com as palavras, resolveu então aliar-se ao silêncio. Na verdade não era uma escolha, era o que lhe restava e nem ao menos sabia que seu silêncio a desenhava. Desenhos borrados, tristes e que sempre faltava algo. Pareciam querer explodir em alguma palavra, mas não sabia qual.
O silêncio daquela menina sempre foi pecador, sempre deixou em branco os seus dias, dias que poderiam ter sido pincelados de palavras, de sons, mesmos que poucos, mas sons. Poderiam ter sido pincelados por qualquer coisa que ali deixasse sinal de vida, de sentimento, seja ele qual fosse.
O tal do silêncio passou a ser um impasse, porque depois de muito tempo já não se entendiam, não concordavam, e a menina passou a odiá-lo. Claro, percebeu que o silêncio sempre deixa espaço para as palavras e estas não eram as suas, porque as suas convardimente se calaram, se esconderam em algum lugar e não as encontrou mais.
Depois de muita busca encontrou uma aqui, outra ali, mas ainda não era a palavra que precisava, porque de tanto acúmulo, as palavras saiam desordenadas, apressadas e não exprimiam o que deviam. Era tarefa dificil, diária e cautelosa, porque vez ou outra sentia reinar nas suas veias a comodidade do silêncio. A necessidade de quebrar o vão foi crescendo, atormentando, machucando. O silêncio tinha deixado feridas que não cicatrizaram, e ao contrário das palavras, sua memória era firme, persistente e impiedosa, sempre lhe fazia visitas nas horas mais inoportunas e lhe presenteava com fatos que aumentavam ainda mais sua angústia, a angústia de ter perdido o tempo em que as palavras poderiam ter sido ditas e não foram.
De tanto ver o incômodo dessa menina, resolvi dizer-lhe:
_ Menina, guarda tuas palavras para a eternidade. Quem faz teu desenho é o silêncio que tanto confiaste. Hoje não há quem queira ouvir-te.


Laís Toscano

sábado, 17 de abril de 2010

Eugénio de Castro


Tua frieza aumenta o meu desejo:
fecho os meus olhos para te esquecer,
mas quanto mais procuro não te ver,
quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
humildemente, sem te convencer,
enquanto sinto para mim crescer
dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei-de possuir-te, sei
que outro, feliz, ditoso como um rei,
enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
amam metade os que amam com esperança,
amar sem esperança é o verdadeiro amor.

Eugénio de Castro

Esse texto foi indicação de um amigo. Gostei do texto (apesar de ter uma ideia de submissão), em especial do último verso. Decidi pesquisar mais sobre o poeta português e por coincidência encontrei um poema que tem como título À Laís. Desde já fica o compromisso de postá-lo depois.


Laís Toscano

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Os sinos não anunciavam sua chegada e o céu não se vestiu de um azul mais vivo. O relógio da igreja continuava a marcar o passar das horas.O tempo passou, nada mudou. Ele mudou.
Trazia a mala cheia de medo e indefinição. Há anos tinha partido e sentira o mesmo medo. Mas naquela ocasião sabia para onde ia e o que ia fazer. Agora não. Agora era diferente. Trouxe os olhos baixos e tristes, mãos inquietas, pensamentos acelerados e vontade de não precisar voltar.
Aquela volta tinha gosto amargo, tinha gosto de retrocesso, tinha gosto de derrota.
Largou a mala na sala e ficou a observar as paredes da casa. A casa era a mesma, mas não tinha cheiro de futuro. Os móveis eram os mesmos, mas já não eram tão acolhedores. A árvore do quintal não o reconheceu e o cheiro de infância virou lembrança.
Anos atrás tinha partido e sabia que voltaria, mas não assim tão de repente, não sem antes concluir o que desejava, não sem antes poder voar mais alto. O sentimento não era de ingratidão, mas era de desejo de conhecer outros caminhos. Ao longo desse tempo os sonhos cresceram e já não cabiam naquele espaço. Parou por alguns segundos e pediu perdão sabe-se lá a quem por todos aqueles pensamentos e prometeu a si que tentaria construir seu futuro a cada despertar de sol.
E repetia baixo: “- Não! Ainda não acabou.”



Laís Toscano